27 de mai de 2010

De axé e outras coisas.

Eu sempre questionei a forma desrespeitosa como algumas pessoas resolvem ser alguma coisa que justifique a aquisição de uma identidade. O melhor exemplo é o comportamento de alguns ao afirmarem que praticam e/ou ensinam capoeira angola simplesmente pelo fato de terem feito uma oficina de final de semana com o mestre A ou B, independente do que ele, o mestre , signifique para o mundo da capoeira.
Deixei de preocupar-me ao analizar o que seria deles se, um dia, decidissem ser índio simplesmente por achar que assim conseguiriam um espaço em uma das várias reservas no Amazonas: travestido com um cocar, uma tanga e todos os estereótipos necessários para ser confundido com um índio. Com certeza estaria faltando alguma coisa cuja aquisição, o lugar onde consegui-la, só será de conhecimento de um índio de verdade.Na realidade, ele só conseguiria enganar aos seus iguais,ou seja: outros travestidos.
Contas no pescoço,contra-eguns comprados na feira ou qualquer outro elemento simbólico sem que tenha sido previamente revitalizado é só simbolo.Conforme Juana Elbein,em seu clássico "Os Nagôs e a Morte", "o axé trata-se de um poder que se recebe, se compartilha e se distribui através da prática ritual, da experiência mística e iniciática,durante a qual certos elementos simbólicos servem de veículo. è durante a iniciação que o axé do "terreiro" e dos orixás é plantado e transmitido às noviças".
Não basta dizer: AXÉ, tem que ter FÉ.

13 comentários:

  1. Mestre!

    Mojuba e modupe por todas as orientações.
    Abraço
    David

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  2. Mestre,

    Poderia falar sobre as pessoas que lhe influenciaram a traves dos anos nessa aprendizagem do "sentimento"? Tanto na capoeira, como na religião, na vida...

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  3. Armando... Não sei se precisa estar muito perto do Mestre pra saber que ele já nasceu com sentimento, e foi sua ancestralidade que se encarregou de lhe colocar em contato,no decorrer dos anos,com pessoas capazes de fortalecer seu "axé". Arrisco em utilizar a expressão:"princípio da espiritualidade". Existem coisas que podem ser aprendidas e apreendidas, mas será que podemos falar em aprendizagem do sentimento?

    Abraço.

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  4. Anônimo,

    Se vc tivesse lido pausadamente o meu comentário, teria reparado que a minha solicitação é para que o Mestre Moraes fale "sobre as pessoas" e não sobre o aprendizado.

    Já que vc arriscou utilizar uma expressão sobre espiritualidade... arrisque usar o seu nome - princípio da sua ligação ancestral.

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  5. Armando, Armando... Eu lí e relí seu comentário, e você? Fez o mesmo com o meu? Não estamos na Roda Virtual de Jerônimo! Aqui, o nível pode, e deve, ser outro... Esqueçamos agressões verbais, arrogâncias, frustações, etc, etc, etc...E aceitemos a possibilidade de que um comentário seu possa servir de inspiração para o comentário de um outro alguém... Falei em princípio da espiritualidade, aproveitando o ensejo para evocar apenas um princípio (entre outros tantos que envolvem a nossa Capoeira) que os aprendizes devem tratar com o máximo de responsabilidade. Aspecto este que requer, no mínimo, a condição de entender que nem tudo sobre o mundo da espiritualidade individual pode ser dito em rede pública (muito menos na virtual). Em relação ao meu nome, não concordo com você que seja ele um representante fidedigno da minha ligação ancestral. E se eu for brasileiro e me chamar Kennedy?


    Malcom X

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  6. Anonimo,

    Participo deste blog para aprender do Mestre Moraes, não entendo porque vc insiste em responder e interpretar os meus comentários!
    Se vc tivesse participado da nossa roda no sábado, teria ouvido a resposta dele à minha pergunta.
    Também teria visto que a interpretação do Anonimo está bem longe do que o Mestre Moraes falou.

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  7. Na verdade, Armando, você tem razão! Quem sou eu pra estar tentando dialogar com um REPRESENTANTE de Mestre Moraes...


    Sua humildade me comoveu!

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  8. Um espaço para trocar experiência.Por isso,melhor seria que o orgulho seja posto de lado.Acredido que a pessoa mesmo que não seja Mestre Moraes possa contribuir com algo.

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  9. Mestre Moraes, obrigado pelos esclarecimentos, que elucidaram tanto a mim quanto ao Marcos Vinicius (tenho certeza), que levantou a questão.

    O exemplo do (pseudo)índio, vale destacar, foi definitivo.

    Grande abraço!

    Felipe Bezerra
    Grupo Só Angola - RJ

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  10. UMA HOMENAGEM ESPECIAL A ARMANDO QUE, UM DIA, QUEM SABE, ASSIM COMO MESTRE MORAES, ESTARÁ DIANTE ALUNOS - ESPÍRITOS- QUE PRECISAM SER "ESCULPIDOS" PARA QUE A CHAMA DA VERDADEIRA LUTA NUNCA SE APAGUE COM UM SIMPLES PONTO FINAL:

    *Escultores de almas*

    Péricles foi um célebre orador e estrategista que governou Atenas de 460-430 a.C., e ficou conhecido na história como a maior figura Política daquela cidade.

    Estimulou as artes e a cultura, realizou grandes construções como o Partenon, templo pagão de insuperável perfeição arquitetônica e riqueza escultural de Atenas.

    Certa feita, promoveu uma grande festa em homenagem à beleza da cidade de Atenas, para a qual mandou convidar todos aqueles que, de alguma forma, haviam contribuído para que a cidade ficasse tão bela.

    Avisado que os convidados já estavam presentes, Péricles lançou seu olhar sobre os salões e notou escultores, pintores, arquitetos, políticos, mas não percebeu nenhum pedagogo.

    Chamou seus assistentes e lhes perguntou por que os pedagogos não estavam ali. E eles responderam: Porque não foram convidados, senhor. Afinal, não deram nenhuma contribuição para embelezar Atenas.

    Então Péricles ordenou: Vão convidá-los imediatamente para a festa, pois são eles que embelezam as almas dos atenienses.

    Interessante pensar no que isso significa.

    Importante refletir sobre o que significa ter o poder de esculpir nas almas daqueles que se dispõem ao aprendizado, à reflexão sobre os valores, as virtudes, o sentido da vida.

    E nesse contexto podemos dizer que os professores [educadores] são escultores de almas, sim.

    Um dia um professor aposentado, alma sensível e dedicada, competente e estudioso, estava sendo entrevistado e lhe foi pedido para que falasse um pouco sobre sua maior produção literária, pois também é escritor, e ele falou com sabedoria:

    Minha maior produção são os meus alunos.

    De fato, quem tem acesso a um ser humano, numa sala de aula, predisposto a receber lições, poderá deixar uma grande e nobre produção.

    Trabalhar com as mentes e os corações é algo de valor inestimável.

    E como o professor também é um ser inacabado, a experiência numa sala de aula pode e deve ser uma grande oportunidade de ensinar aprendendo e
    aprender ensinando.

    No cômputo final, o resultado será uma grande experiência conjunta que faculta a ambas as partes momentos de embelezamento mútuo.

    Se você tem o elemento humano sob sua responsabilidade, lembre-se da importância dessa nobre tarefa e seja um artista dedicado a embelezar as almas dos seus educandos, pois é de almas belas e nobres que a Humanidade
    precisa.

    * * *

    Você, que é professor, antes de iniciar a sua aula, olhe para os rostos que estão à sua frente e lembre-se de que são almas prontas a absorver suas lições.

    E não serão somente as instruções formais que irão captar, mas, acima de tudo, essas almas absorverão suas vibrações de amor [pela capoeira], dedicação e entusiasmo com que se dirige a todos.

    Afinal, ensinar é uma arte que requer mais do que simplesmente transferir informações.

    É a sabedoria de criar possibilidades para que cada aluno se produza e se construa a si mesmo com os elementos de reflexão que recebe do seu mestre.

    Pensemos nisso, e sejamos um bom escultor de almas.

    Todos somos escultores de almas, em todos os momentos estamos semeando o mundo com nossas palavras, com nossos atos, com nossos pensamentos.

    Pense nisso!

    Aláfia

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  11. Caro Aláfia,

    Gostei muito do texto com o qual vc contribuiu. Tenho certeza de ser um bom aluno e por isso vejo e sinto os retoques que são dados em mim pelos meus escultores.
    Na capoeira, tenho a grande honra de ter um mestre que seja com uma palavra, um grito ou com um olhar, consegue sempre direcionar os meus passos no lugar certo.
    Acredito na responsabilidade infinita que temos na hora de ensinar os outros. Por isso acho sempre melhor consultarmos os mais antigos no caso de dúvidas, pelo aprendizado, pelo reconhecimento e sobretudo - pelo respeito.

    Abraço

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  12. Muito bem!!!As vezes fico admirando como muitos estudiosos, praticantes, colaboradores, enfim uma gama enorme de pessoas que "tentam" dar um "ar" de refinamento e erudição a capoeira. Realmente ""Mestre Pastinha", no seu "Quando as pernas fazem miserer", mostrou um aspecto até então não abordado sobre a capoeira, e alguns "tradutores" nomearam como metafísica,no entanto depois dessa epopéia todo e qualquer tende a buscar explicações até na Grécia antiga para descrever uma atividade étnica negra popular.
    Será porque é mais fácil falar do entrar na roda e jogar? Será que os "teóricos" estão tomando conta da capoeira? Será que o "negro" pobre que mora na periferia terá seu lugar ocupado na realidade da capoeira? Será que um japonês com dólares tem mais importancia que o negrinho "pedrinho"?

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  13. Este bate papo está parado há várias semanas... achei o seguinte texto, do Mestre Didi, bom para a nossa reflexão:

    O PASSAGEIRO DESCONHECIDO

    Uma vez na Bahia, no cais das Palmeiras, junto à Rampa do Mercado Modelo, aconteceu o seguinte:

    A primeira lancha de vela "rabo de peixe" construída no porto da Bahia, com o nome Oyapóque, tinha um mestre muito ranzinza. Este mestre, um dia, quando toda a guarnição do barco se achava em terra fazendo compras para a viagem e fazendo suas folias, vendo que não voltavam para a embarcação na hora determinada, disse:

    Até agora estes mocinhos não voltaram, vou deixar eles em terra. Nem que seja com o Diabo, eu viajo para Nazaré.
    Aí chegou um passageiro e pediu uma passagem; o mestre então lhe perguntou:

    - Voce sabe viajar?

    O passageiro respondeu que sabia. O mestre daí mandou largar os cabos, puxou com a lancha para o quadro e começou a viagem.
    Quando a lancha ia saindo do quadro, o sino da Conceição da Praia dava a primeira badalada do meio dia; prosseguiram viagem com o passageiro tomando conta do leme da embarcação, que, mesmo sem vento, ia deslocando uma grande velocidade a ponto de passar por Itaparica ainda dando meio dia, Vera Cruz, Cações, Matarandiba, Santo do Catu, ,Caixa Prego, Jaguaripe, Maragoginpinho, Manoel Gilô e finalmente chegando em Nazaré ainda meio dia.
    Porém na entrada do porto de Nazaré tem uma cruz, de forma que, quando a embarcação estava para sair do canal e entrar para atracar no porto, o passageiro deu as vistas na dita cruz e, quando reconheceu o que era, transformou-se em um bicho fora do comum, saltando para dentro dos mangues e dizendo para o mestre:

    - Foi a Cruz que lhe valeu.

    Dai o mestre, assombrado, caiu dentro do saveiro perdendo os sentidos, vindo, muito depois, outras pessoas encontrarem o saveiro perdido dentro do canal com o seu mestre desacordado.
    Depois que ele recuperou os sentidos, contou o que tinha acontecido a todos, dizendo que nunca mais havia de ser tão grosseiro e estúpido, ao ponto de convidar até o Diabo para viajar com ele.

    - Contos Negros da Bahia e Contos de Nagô -

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