17 de mai de 2010

BY ANY MEANS NECESSARY.

Armando,não só aos os meus alunos, mas a todos os praticantes de capoeira falta mais um pouco de responsabilidade com os princípios que fizeram desta arte um instrumento de luta do proletariado em um momento em que as dificuldades eram maiores mas, mesmo assim,estratégias foram utilizadas como luta de resistência para que nós ainda pudessemos ter a capoeira até hoje.Aproveitando o ensejo,responderia ao Omowale que a preocupação de muitos em não concordar com a necessidade da homologação de um mestre na titulação de um outro mestre ou contramestre faz parte de um movimento articulado dentro de um grupo que se auto intitulou, já está "reconhecido" por uma comunidade que já está à espera de um reconhecimento em breve.É um acordo de cavalheiros com o objetivo de tornar a capoeira uma manifestação acéfala e sem princípios.Quando se defendem com o argumento de que antigamente era a comunidade capoeirista quem reconhecia os mestres de capoeira, esquecem de que aquela comunidade tinha por características não andar com berimbau pelas ruas,não transitar fantasiados de capoeirista, nem resolviam os seus traumas nas rodas de capoeira, muito menos via internet.
A ninguém deve ser proibido tornar-se um mestre de capoeira desde que tenha a condição mínima para fazer pela capoeira o que fizeram os mestres mais antigos que muitos estão tentando depreciar.
Alex,a sua pergunta já está praticamente respondida acima.A capoeira já está sofrendo os efeitos da perversidade de uma globalização que tem, conforme o Prof. Milton Santos, como uma das suas regras o esgarçamento das particularidades tecidas ao longo de séculos.Ainda segundo ele,"Neste mundo globalizado[...]a confusão dos espíritos impede o nosso entendimento do mundo, do país, do lugar,da sociedade e de cada um de nós mesmos". Observe, Alex que os capoeiristas já estão vivendo essa situação.
Quanto à questão sobre os mestres Bimba e Atenilo, se foram angoleiros,sei que o mestre Bimba tem uma história na capoeira angola. Quanto ao mestre Atenilo, tenho informações que foi aluno do mestre Bimba desde 1929 quando ainda tinha 11 anos.
Sol,a tradição enquanto uma das referências da ancestralidade, deixa de ter valor diante de um projeto gigante e perigoso de negação dos princípios, alguns subjacentes, que contribuiram para a sobrevivência da capoeira.
Quanto à minha história no Rio de Janeiro, ela se confunde com a minha história quando retornei, em 1983, para Salvador.Já ouvi algumas pessoas dizerem que a capoeira angola tem dois momentos distintos: antes e depois do Mestre Moraes. Eu não generalizaria, mas muitos dos que estão por aí, travestidos de ideólogos, começaram a ter história na capoeira angola, no máximo, a partir de 1983.Muitos se tornaram angoleiros sem nuncater treinado tal estilo. Conheço todos eles, e é por isso que querem me calar.
Capoeira é a minha vida. Ela está para mim, como a água está para o peixe. Defenderei os seus princípios como o líder negro Malcomm X definia a sua luta pela povo negro americano, com o lema: BY ANY MEANS NECESSARY!

MESTRE MORAES.

11 comentários:

  1. "As únicas pessoas que realmente mudaram a história foram as que mudaram o pensamento dos homens a respeito de si mesmos."

    Malcolm X

    " Capoeira é a minha vida. Ela está para mim, como a água está para o peixe. Defenderei os seus princípios como o líder negro Malcomm X definia a sua luta pela povo negro americano, com o lema:"

    Não imagino de outra forma, graças a DEUS.

    Aqui no ceará temos uma ditado para a convicção:
    " A CABISOLA DE CANGALHA QUEBRA MAS NÃO SE ABAIXA " ( Vaqueiro correndo na Caatinga. )

    MESTRE SAÚDE PAZ E FORÇA SEMPRE...
    Walter Campos Júnior - Capoeira Atitude - Ceará

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  3. “apesar de toda luta...o negro não se libertou camarada”...

    Mestre, dentro do conjunto de iniciativas que defendem a causa política da capoeira, temos a musicalidade, que em seus versos traduzem de forma evidente a necessidade de trazer à tona a verdade real quanto à história do nosso povo, essencialmente no que concerne à deturpação da história do negro e da essência da capoeira. Essa arte, este instrumento de libertação por natureza, que mesmo diante das diversas investidas da elite dominadora, dentre elas, a descaracterização da capoeira, não atingiu o fim colimado, uma vez que encontrou em Mestre Moraes seu pior algoz, que com paixão defende essa luta e cada vez mais angaria adeptos dessa causa que visa fazer cair por terra séculos de enganação e idiotização do povo. Nessa esteira, gostaria que o senhor explanasse a respeito de qual ou quais são essas algemas que ainda insistem em tolher a liberdade de nosso povo em geral.

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  4. "...falta mais um pouco de responsabilidade com os princípios..."

    Mestre, gostaria que falasse mais a fundo sobre estes princípios que acabam fazendo TODA a diferença na nossa capoeira.

    Abraço,
    Armando

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  5. Mestre!Sabemos que Internet é uma janela no mundo, que permite ver claramente o que está acontecendo, também com a capoeira.
    Quando você fala de necessidade de reconhecimento abre pra mi uma temática muito interessante.
    Acredito que através da falsa "estretegia do reconhecimento" se desarma o pensamento do homem.
    Há hoje uma necessidade extrema de ser reconhecido em alguma coisa. (Mas pode ser que não seja caracteristica só de hoje, você que tem vivido mas do que eu pode me responder)
    Essa quantidade de informação, impossível de medir, a la qual estamos sujeitos, faz de forma que as pessoas estejam mais preocupadas em aparecer do que em ser, se formar, se criar...
    Assim actua o sistema: dando remédios de ilusão.
    A aceleração temporal de la qual fala também o prof. Milton Santos nos faz pensar que já temos o conhecimento porque o podemos mostrar ao mundo inteiro a traves da Internet, de viagens,
    mas o que esta acontecendo só é mistura, confusão de pensamentos mal definidos pouco aprofundados, muitas vezes regidos pela monetarização da vida.
    O dinheiro até cria uma ilusão de reconhecimento, ilusão de reparação dos males do passado, da ausência de racismo, etc...
    mas estamos assistindo a uma triste verdade: o funcionamento do imperialismo cultural.
    Assim, acredito que não deve haver uma necessidade de reconhecimento mas uma exigência (de exigir) de reconhecimento da cultura da capoeira.
    Reivindicação necessária já que as leis do jogo mudaram.
    Acredito que a sua proposta, a proposta do GCAP em relação á capoeira seja a única possível, a única desejável para quem acredita na capoeira.
    Assim me pergunto como contribuir a estender esse desejo á comunidade de capoeira angola.
    Primeiro sem duvida apoiando a seu trabalho e querendo conhece-lo.
    Segundo talvez falando sobre uma comunidade que há de sentir novamente o espírito que faz que ela se chame comunidade,
    já que como você observa a globalizaçaõ á desnaturalizo.

    Gostaria de ouvir falar mais sobre essa comunidade de capoeira de la qual você fala.
    Que acordos tinham os capoeristas neste tempo?

    Muito obrigada,
    Cecilia

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  6. Agradeço pela resposta e ouso postar que pior do que negar o reconhecimento dos mais velhos, é aceitar o reconhecimento de quem ainda não tem competencia/conteudo para tal.
    Digo isso pelo fato de existirem hoje pessoas que aceitam tal título ou reconhecimento de outras pessoas que, as vezes, nunca foram de dentro do universo da Capoeira Angola e, isso se torna comodo demais.
    Ademais, ainda fica aqui o meu descontentamento e apoio à sua atitude quanto à roda virtual. Creio e, já peço licença, para tornar este espaço o nosso espaço de discussão, onde possamos fazer com mais respeito e consciência.
    Abraço
    Omowale FICA-SP

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  7. Mestre Moraes, gostaria que o senhor explicasse algo que muito me incomoda nas rodas e eventos de capoeira: a minha inquietação é muita quando alguém utiliza a palavra "axé" ou "asé", como preferir. Pratico a Capoeira Angola e sou adepto de religião de matriz africana, o candomblé, entrementes acho muito banal da forma como é proferida. Muitos até não acreditam nas divindades cultuadas em roças, terreiros, ilês, casas... assim mesmo fazem uso dessa palavra que tem força e grande importância para nós.
    Não foi e não é assim que aprendi.
    Gostaria muito que o senhor comentasse.
    Desde já muito grato

    (Marcos Vinicius - Grupo Meninos de Angola-GO)

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  9. Mestre, e a reuniao de Junho? Ja tem data?

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  10. Olá, Marcos Vinicius. Acho bastante pertinente o teu questionamento a respeito do uso da palavra 'axé'. De minha modesta parte, pelo menos, devo te dizer que vejo toda e qualquer forma de banalização com um certo desapontamento, entende? Mas creio que o Mestre Moraes saberá nos responder com toda a sabedoria que lhe é cabível.
    Grande abraço!

    Felipe Bezerra - Grupo Só Angola (RJ)

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  11. Mestre

    Mestre, meu mestre querido,
    Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
    Vida da origem da minha inspiração!
    Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

    Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
    Alma abstracta e visual até aos ossos.
    Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
    Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
    Espírito humano da terra materna,
    Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva...

    Mestre, meu mestre!
    Na angústia sensacionalista de todos os dias sentidos,
    Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
    Eu, escrevo de tudo como um pó de todos os ventos,
    Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!

    Meu mestre e meu guia!
    A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
    Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
    Natural como um dia mostrando tudo,
    Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
    Meu coração não aprendeu nada.
    Meu coração não é nada,
    Meu coração está perdido.

    Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
    Que triste seria como tu se tivesse sido tu.
    Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
    Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
    Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
    Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
    Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
    Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
    Pela indiferença de toda a vila.
    Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
    Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
    Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
    E eu por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.
    Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,
    Se não me podias ensinar a ter alma com que a ver clara?
    Porque é que me chamaste para o alto dos montes
    Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
    Porque é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
    Como quem está carregado de ouro num deserto,
    Ou canta com voz divina entre ruínas?
    Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
    Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

    Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
    Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
    Que poderia ao menos vir a agradar,
    E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
    Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

    Feliz o homem marçano,
    Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
    Que tem a sua vida usual,
    Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
    Que dorme sono,
    Que come comida,
    Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

    A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
    Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
    Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.

    Álvaro de Campos, in "Poemas"
    Heterónimo de Fernando Pessoa


    Mestre Moraes, encontrei este poema numa lista e o achei muito pertinente quando relacionado à importância de um Mestre na vida de um capoerista. Só que ficaram algumas lacunas abertas na minha interpretação...Por isso, peço-lhe ajuda, perguntando: De que forma o senhor interpretaria este poema se ele tivesse sido enviado para a vossa pessoa?

    Abraço.

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