5 de abr de 2010

Mestre Pastinha, o "filósofo da capoeira"

Mestre Pastinha, caso estivesse vivo, hoje estaria completando 111 anos.Vários outros capoeiristas,seus contemporâneos,foram quase que apagados da história graças à singularidade como o Mestre Pastinha verbalizou a capoeira.Através dos seus manuscritos,nos deixou interpretados os elementos subjacentes da capoeira angola de maneira que esta arte, materializada pelos seus praticantes, não se permitisse ser limitada a uma atividade física sem nenhum sentido holístico.Mestre Pastinha quis para a capoeira muito mais do que a simples institucionalização do seu reconhecimento. Ele preconizou uma capoeira cujos praticantes a tivessem como "fé de ofício", além de não permitirem o seu fracasso,pois ("...se fracassar a capoeira! é o fracasso dos capoeiristas,mas(ela) não morreu, porque não morrerá, ela vive em todos os seres, quer humanos, quer espiritual").
Ele atrelou o progresso da capoeira ao progresso do capoeirista. Para o Mestre, a complexidade da capoeira angola dificulta-lhe uma definição:"Ela é tudo que a boca come"."ela é cheia de malícia,é artimanha,tem possibilidade para tudo que pensar de bom na vida". Na belíssima interpretação das palavras do mestre Pastinha,feita pelo Dr. Decânio,"os múltiplos aspectos da capoeira(angola) se manifestam consoante o contexto, como a água que toma a forma do vaso".
O Mestre Pastinha disse que "...a capoeira é espiritualizada no eu de cada qual".É,justamente, essa individualidade que dá ao capoeirista a condição de jogar na roda, quando jogamos com; e na vida, quando precisarmos jogar contra.Em suas palavras,"A capoeira produz efeitos muito mais amplos do que se pode imaginar...e o melhor capoeirista não é aquele que só sabe cantar, tocar e jogar...para ser bom, é preciso ser completo no fundamento".Na intenção de presentear-nos com a sua visão sócio politica da capoeira, o mestre afirmou que o capoeirista aprende para defender os seus direitos, e não para "praticar valentia contra a integridade pessoal" do outro.
Finalizando,nos encontramos diante de um grande desafio:dar continuidade às ideias do Mestre Pastinha mesmo diante da necessária dinâmica cultural por que passa a capoeira angola, além da sua mundialização desenfreada.

Mestre Moraes.

Para saber mais, ver "Manuscritos e desenhos de Mestre Patinha com o Estatuto do Centro Esportivo de Capoeira Angola".
Filho,Angelo A. Decanio. Edição preliminar e personalizada. 1996.

4 de abr de 2010

Resposta a Koji ori e outros interessados.

Realmente, vejo-me na obrigação de contribuir com qualquer movimento social cujo objetivo seja corrigir preconceito em qualquer nível. A resistência, por parte de alguns capoeiristas, quase me leva a desistir da contribuição, mas como não costumo sair da roda quando apertam o jogo, continuo na peleja.

Com relação à letra da música que dá inicio ao seu comentário, o que me chamou atenção, durante muito tempo, foi a contradição entre a letra original e o que nos têm mostrado os vários trabalhos iconográficos sobre da capoeira, os quais não nos contemplam com imagens de capoeiristas maltrapilhos; ao contrário, o que vemos são capoeiristas trajando paletó, camisa de mangas compridas e sapato, a famosa “domingueira” .Quando interessava ao produtor da imagem mostrar uma falsa imagem da capoeira para justificar “tradição”, os capoeiristas eram travestidos de personagens do século XIX , em pleno meados do século XX.

Faz sentido, sim, a relação feita por você entre o trabalho musical do GCAP e a bateria do Mestre Traíra. Desde a primeira vez, quando ouvi o disco do mestre Traíra, não abri mão de tomá-lo como referência. Preocupo-me em não copiá-lo, mas seleciono e absorvo tudo que possa fazer a diferença entre o trabalho do GCAP e os outros.

A expressão “kumbi virô ie ie, é citada no trabalho do historiador Robert Slenes “Malungo, Ngoma vem!”África encoberta e descoberta no Brasil (1995). O autor nos orienta de como os escravizados se utilizavam de códigos linguísticos, desconhecidos pelos senhores para enganá-los. Resumindo, a expressão “kumbi virô ie ie”, dentre outras, era utilizada para falar da presença indesejável, por exemplo, do capitão do mato, Vale ressaltar que a expressão em causa é composta de vocábulos das línguas portuguesa e africana(bantu).

Importa, ainda hoje, que os capoeiristas se reencontrem com códigos que protejam a capoeira do envolvimento daqueles que vêem esta arte apenas como mais uma forma de amusement.

Moraes.

Mais um livro sobre capoeira!!!

Em breve, praticantes de capoeira e admiradores terão mais um instrumento facilitador do entendimento desta arte tão magnífica. Ainda sem data prevista para o lançamento, teremos uma grande festa com, no mínimo, uma roda de capoeira. Todos serão convidados.

Mestre Moraes.